30.9.20

ABES-SP lança documentário sobre a saúde dos catadores de materiais recicláveis

 


A ABES-SP (Associação Brasileira Engenharia Sanitária e Ambiental), disponibilizou o webdocumentário "Catador: reciclagem, trabalho e saúde". 


O documentário faz parte de um projeto que incluiu a publicação de um 
livro editado pela Limiar (clique aqui para baixar gratuitamente), que aborda diversos aspectos do trabalho dos catadores de material reciclável, sua organização em cooperativas, cuidados com a saúde e com o meio ambiente, legislação, logística de instalação de cooperativas entre outros temas, escritos por uma equipe multidisciplinar.


O documentário possui oito episódios, com depoimentos de especialistas, estudiosos e com quem trabalha diretamente na coleta, os "catadores". Todos os episódios estão disponíveis no youtube. 

Cem anos de Clarice Lispector: atualidade e turbulência

 


por Dany Al-Behy Kanaan

Clarice Lispector comemora cem anos de nascimento neste turbulento ano de 2020. Clarice nunca foi tão comemorada como nas últimas duas décadas: estudos acadêmicos nacionais e internacionais, biografias, reedições, edições especiais... Clarice sempre viva na voz, na escrita, na leitura de tantos sujeitos comuns e os chamados “especialistas”. Este termo, um tanto controverso se considerarmos a insistência da autora em frisar que sua obra “toca ou não toca... não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato”, chamando a atenção para aquilo que tem de mais profunda: a comunicação com o outro, mobilizando-o em sua sensibilidade: “... preciso depressa de tua empatia. Sinta comigo”. Ler Clarice é viver na turbulência. Sempre insisti, e insisto, não basta ler seus textos, é preciso “escutá-los”, como é preciso escutar a sua autora: “Não ler o que escrevo como se fosse um leitor. A menos que esse leitor trabalhasse, ele também, nos solilóquios do escuro irracional”. E por meio de sua voz, essa voz surgida do abismo, escutar quem somos e o que desejamos. Não posso dizer que Clarice está mais atual do que nunca. Porque Clarice nunca deixou de sê-lo. Basta o simples exercício de pegar um texto seu e abrir em uma página qualquer: lá está ela, lá estamos nós e lá está este presente turbulento que nos arranca de nossas certezas ilusórias e nos confronta com esse estranho que somos para nós mesmos. Não por acaso o estranho é uma característica tão familiar em sua vida e em toda a sua obra, ajudando-a a construir tanto uma quanto outra. Esse “estranhamente familiar”, nas palavras de Freud, fez dela e de sua obra únicas, singulares. Como todos aqueles artistas que não temeram “morrer de sua própria morte”, que não deixaram de viver por medo de se arriscar. Clarice correu muitos riscos, com todo o susto e a surpresa de se descobrir outra, outra de si mesma. “A legião estrangeira”, conto seu de cunho auto/biográfico (com essa barra, assegurando o tom de ficção que compõe a nossa história) é a prova viva de como viver o estranho nos arrasta numa experiência tão assustadora como reveladora. Clarice sabia que sem (nos) estranharmos não produziremos o novo. Com seu “assovio no vento escuro”, um dos treze títulos possíveis para seu romance A hora da estrela, nos faz, cem anos depois de seu nascimento, escutar que... que somos falíveis. Que nossas certezas são frágeis argumentos “Para que a casa não estremeça”, como escreve em sua crônica-grito de revolta “Mineirinho”. A nossa casa, quem somos. E somos seres desamparados por natureza. Essa é a verdade de seu assovio que quase faz estourar os nossos tímpanos. Mas sem escutarmos essa verdade, sem “corrermos o risco de nos entendermos”, nossa casa nunca será segura e nunca “nos salvaremos”. Está aí esta outra “verdade” de Clarice: para construirmos uma casa segura, precisamos aceitar o risco que ela própria aceitou, de fazer ruir os frágeis alicerces que nos impede de olhar, e de escutar, aquilo que tememos em nós. De olhar para este outro que somos nós! Um olhar e uma escuta acolhedores, capazes de nos fazer não sentir a fome do outro, mas sentir que o outro também tem fome, que esse outro também somos nós. Só assim poderemos “dormir tranquilos”, “sem medo que nossa casa estremeça”, sim, “Porque quem pensa desorganiza”. Clarice desorganiza todo o nosso sistema de referência. Sempre, como já disse, a cada vez que abrimos um livro seu. E é graças a essa desorganização, e somente a ela, que poderemos olhar para esse mundo doido no qual vivemos, e nos perguntar qual o nosso lugar nele, qual o lugar que queremos ocupar nele. E, também, que marca queremos deixar nele. Um mundo contraditório, que procura nos afastar de nossos sentimentos, de nossa história, nos alienando de nós e em nós mesmos. Um mundo no qual assistimos ao nosso desamparo, tão caro a nós, ser transformado em indiferença. Em que “... um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entender. Para que a casa não estremeça”. Mas, repito, ecoo com Clarice, neste seu grito de revolta, que somente graças a essa desorganização nunca poderemos esquecer “de que nossa luta é a do medo”, pois estamos vivos. E com todo medo, que é também a nossa salvação, ver que a escuridão também existe em nós.


Escuro, estranho, é o nosso momento atual, esse ano de pandemia, que expõe os nossos medos, nossas fragilidades, nosso desamparo. E que pode nos contagiar com sua desesperança. A menos que, como nos lembra Clarice, olhando bem fundo no escuro de nós mesmos, escutando atentamente o som de nossos medos mais terríveis possamos, em vez de nos refugiarmos em “nossa casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa [que] não resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada”, em vez disso, eu volte meu olhar e minha escuta para os alicerces de minha casa, antes que seja tarde, e perceba que “aquilo que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede”, possa afastar as sombras do vírus da indiferença, que seca minha garganta, aperta meu peito e me deixa sem ar. E, então, vacinado contra esse vírus mortal, que querem me fazer acreditar que a ele sou imune, eu entenda “que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando sobre [uma] cabeça aturdida e doente, poderia aplacar”.

Hoje, cem anos de Clarice, se fecho minha porta, se me refugio em minha casa, não é porque deixo de fora o meu irmão, mas porque, preocupado com a nossa vida, com a vida, eu me distancio para nos proteger, porque sei que nossa casa é frágil, e compreender que o meu medo não é compreender, mas compreender que “esse medo” pode ser exatamente a nossa salvação, alcançada somente “pela confiança, pela esperança e pelo amor”, porque “... sei que um homem pode ser o pai de outro homem”. E nunca esquecer que “... todos nós, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento (...) cometendo o seu crime particular, um longamente guardado.”

Cem anos depois de seu nascimento, Clarice Lispector continua ecoando em nosso presente, em nossos ouvidos, aquilo que ela viveu até o seu último “sopro de vida”: a possibilidade de nos entendermos, de entendermos o mundo contraditório que habitamos, para, transformados, transformarmos nossa realidade. Com toda a nossa força e nossa fragilidade. E, como ela, dizer, com toda a nossa verdade: “Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria”.

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Dany Al-Behy Kanaan

Psicanalista. Mestre e Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Professor de cursos de Pós-graduação Lato Sensu  da UniFaj e UniMax; Coordenador e professor do curso de Formação em Psicanálise (Instituto Antonio Diogo). Autor dos livros À escuta de Clarice Lispector. Entre o biográfico e o literário: uma ficção possível (Educ e Limiar) e Escuta e subjetivação. A escritura de pertencimento de Clarice Lispector (Casa do Psicólogo e Educ).


25.9.20

Como anda sua fé, uma crônica de Antonio Penteado Mendonça

 


Antonio Penteado Mendonça é advogado e  atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras. Ele apresenta, pela Rádio Eldorado, Crônicas da Cidade, um espaço de comentários sobre São Paulo em seus diversos aspectos. Na crônica do dia 25 de setembro, ele abordou o livro Como anda sua fé, de Pedro Fleury, editado pela Limiar. Confira abaixo o texto ou, se preferir, acesse o áudio do programa  



(ouça o áudio desta crônica acessando aqui)


Luciano Fleury é quase primo. É primo dos meus primos, por isso frequentava a casa de minha avó Wilma, na Rua Jandaia. Músico, meu colega de faculdade de direito, companheiro de noite, parceiro de música e poesia, é amigo da vida inteira.

Por isso não estranhei quando, na hora do almoço, tocou a campainha e pouco depois me entregaram um envelope deixado pelo Dr. Fleury, que “não quis entrar porque estava com pressa.”

Dentro do envelope meu amigo me deu dois presentes. O primeiro, o livro de seu filho Pedro. E o segundo, o talento de seu filho Pedro.

Não tem nada mais gostoso do que ver os filhos darem certo. Eu não tenho bola de cristal, mas, pelo que li, Pedro tem tudo para fazer carreira no mundo das letras.

Seu livro “Como vai sua fé” é uma história e Pedro é um grande contador de histórias. Se o livro é romance ou novela tanto faz. O livro conta uma história e como tantos outros livros que contam histórias, a história do padre Frederico, contada pelo Pedro, é uma boa história.

O livro tem ritmo, é rápido e prende a atenção. Segue como uma conversa numa quadra de bocha, numa noite de dezembro, em volta do baralho de truco, ouvindo alguém contar uma história que prende do começo ao fim, e que, no final de cada capítulo, pergunta: “e depois?”

Depois a história segue na sua bitola, porque não é história de verdade, é história inventada. Então Pedro brinca com ela, encomprida ou encurta, omite detalhes que explicariam o antes, capricha no que se segue, expõe moral e hipocrisia, impõe o agora e o renega pouco depois. As aventuras do padre Frederico são puro folclore. O padre, o coroinha, a beata, o prefeito, a mulher do prefeito, a fofoqueira e os empresários. Com essa salada, Pedro conta uma história brasileira, inusitada e muito gostosa.

17.9.20

Webdocumentário Catador: reciclagem, trabalho e saúde será exibido nesta sexta, 18

 



A ABES-SP (Associação Brasileira Engenharia Sanitária e Ambiental), apresenta, nesta sexta-feira, 18 de setembro, às 16h, o webdocumentário "Catador: reciclagem, trabalho e saúde". O documentário faz parte de um projeto que incluiu a publicação de um livro editado pela Limiar, que aborda diversos aspectos do trabalho dos catadores de material reciclável, sua organização em cooperativas, cuidados com a saúde e com o meio ambiente, legislação, logística de instalação de cooperativas entre outros temas, escritos por uma equipe multidisciplinar.

O livro pode ser baixado diretamente pelo site da Limiar, ou solicitado uma cópia física para a ABES-SP.


No mesmo evento será apresentado, também a revista comemorativa dos 10 anos do projeto Diadesol (
Dia Interamericano de Limpeza e Cidadania), com a publicação dos desenhos ganhadores dos concursos realizados durante esses anos. Sobre isso, já falamos anteriormente aqui no blog   

Inscrições para participar do evento devem ser feitas pelo link: http://abes-dn.org.br/?p=35582 

    

11.9.20

“A fantasia, o design e a literatura para a infância” recebe prêmio de melhor livro do ano pela FNLIJ

  



A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), representante brasileira da Ibby (International Board on Books for Young People), divulgou a lista dos livros contemplados na 46ª edição do Prêmio FNLIJ 2020 - Produção 2019, que avalia as principais obras relativas à literatura para infância e adolescência editados no Brasil. O livro A fantasia, o design e a literatura para a infância, de Michaella Pivetti, publicado pela Limiar, recebeu o prêmio de melhor livro do ano na categoria “teoria”.

Dos 580 livros recebidos, foram premiados 14 títulos, de dez editoras, em 15 categorias (leia abaixo os demais ganhadores).

 

28.8.20

Como anda sua fé: uma história de amor, intrigas e tentações



Novo romance da Editora Limiar, Como anda sua fé conta a história de Frederico Ortega, um padre que se desviou do seu objetivo sacerdotal. Ele é designado para a paróquia de uma pequena cidade, onde passa por eventos que o fazem querer retomar sua vocação e seguir por um novo caminho. Um verdadeiro amor surge em sua trajetória, porém as tentações não param de aparecer como obstáculos a serem superados. 



À primeira vista, o argumento central da obra de Pedro Fleury pode parecer ter semelhanças com clássicos da literatura como O crime do Padre Amaro (Eça de Queiroz) e O pecado do Padre Mouret, de Émile Zola. Nos romances, um jovem padre se apaixona por uma bela mulher o que coloca à prova a sua fé. Aliás, alguns críticos consideram, equivocadamente, o livro de Eça de Queiroz plágio da obra francesa. 


No entanto, se nas obras de Queiroz e Émile Zola, o amor mundano questiona a fé e o amor espiritual; neste livro ocorre o oposto: é o amor carnal que faz o padre recuperar a fé que julgava perdida em algum canto obscuro de sua alma. 


A partir dessa premissa, Pedro Fleury constrói uma narrativa ágil, em que não faltam intrigas políticas, beatas e fofoqueiras, corrupção e tentações, mostrando as contradições do ser humano diante de desafios como o amor e a fé.  


Romance de estreia de Pedro Fleury, Como anda sua fé vai agradar aos que buscam uma narrativa direta e que ganha intensidade à medida em que novos personagens e tramas surgem. 






17.8.20

#defendaolivro : Taxar fortunas, não os livros

 




Em meio à desmoralização mundial do governo brasileiro, incapaz de combater a pandemia de covid19 com o mínimo de responsabilidade, o ministro da Economia, Paulo Guedes, encaminha ao Congresso projeto de reforma tributária, que mantém os privilégios dos mais abastados, mas, entre outros pontos, prevê a cobrança de um tributo de 12% sobre o preço dos livros.

Contra essa medida, que encarecerá o custo de um artigo essencial para a formação da sociedade brasileira, diversas entidades lançaram a campanha #defendaolivro (leia o manifesto abaixo). A Editora Limiar apoia a iniciativa pela não taxação dos livros.

Jorge Amado, deputado constitucionalista               

Na Constituição de 1946, a emenda 2859 - apresentada por ninguém menos que Jorge Amado, à época deputado constitucionalista - determinava a isenção de tributos para importação de papel para publicação de livros e jornais. Aliás, é de autoria do bom baiano outras importantes inserções naquela Constituição, como a não obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas (Emenda 3062); a supressão da censura prévia para a publicação de livros e periódicos (Emenda 3064) e a liberdade de culto religioso (Emenda 3218). A reforma constitucional de 1967 ampliou a isenção, a estendendo ao próprio objeto livro. A medida foi mantida na Constituição de 1988 e tornou-se cláusula pétrea, que não pode ser modificada.

Como contrapartida, ao longo dos anos foram criadas contribuições sociais, como PIS e Cofins, mas a Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004, reduziu a zero a alíquota desses dois tributos nas vendas de livros, o que permitiu uma redução do preço final: entre 2006 e 2011, segundo dados do setor, o valor médio do livro diminuiu 33%.



Muitos países não taxam os livros

O manifesto cita o relatório da International Publishers Association (IPA), de 2018, que “argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo”.

Segundo matéria da revista Exame, dados de 134 países mostram que em 53 nações (40%), não é cobrado nenhum valor de IVA (Imposto de Valor Agregado) no preço final dos livros; 49 países (37%) aplicam taxas reduzidas do tributo e em apenas 24% deles (32 países) há incidência do imposto. Na América Latina, somente o Chile (modelo ultraliberal que serve de inspiração para Paulo Guedes) tem alguma forma de cobrança de imposto sobre o livro.



Taxar as grandes fortunas 


Apesar de constar na Constituição Federal de 1988, o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF) jamais foi regulamentado e implementado. Por que será? 

Há intensos debates sobre a viabilidade dessa cobrança. Os que são contra argumentam que tal medida poderia significar uma evasão de recursos do país. Ou seja, os mais ricos iriam investir em outras paragens mais complacentes com seus exorbitantes lucros. É interessante notar como parte da elite usa ou nega o nacionalismo de acordo com suas conveniências financeiras.

Na outra ponta do debate, economistas argumentam que a cobrança do imposto não deixaria os ricos menos ricos, mas poderia significar um aumento de quase 1% no PIB (Produto Interno Brasileiro). Como comparação, o IPTU representa 0,5% do PIB nacional.

Enquanto o governo deseja taxar livros, iates, helicópteros e jatinhos continuam isentos. Provavelmente, Paulo Guedes os considera meios de transportes.

 

 Manifesto em defesa do livro 



Em virtude do projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia, ora em tramitação no Congresso Nacional, as entidades representativas do livro no Brasil, signatárias deste Manifesto, consideram urgentes e necessárias as seguintes ponderações:




⠀⠀⠀1. A Constituição Democrática de 1946 consagrou no país o regime de isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. Inspirada na luta de intelectuais, editores e escritores, a emenda constitucional foi apresentada pelo autor brasileiro de maior prestígio internacional à época, Jorge Amado.

Por um lado, a isenção visava tornar o papel acessível às mais diferentes vozes no debate das questões nacionais, garantindo o suporte material para a livre manifestação de opiniões; por outro, barateava o produto final, permitindo que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país onde o analfabetismo era, infelizmente, a regra e não a exceção.

A mudança constitucional possibilitou a criação e o desenvolvimento das bibliotecas públicas no país, beneficiando as pessoas de menor poder aquisitivo e permitindo que o mercado editorial passasse a ter condições de publicar obras de alto valor intelectual e pedagógico, muitas delas sem apelo comercial, a custos compatíveis com o poder aquisitivo do leitor médio. Não há dúvidas de que a popularização do livro teve, e ainda tem, papel fundamental no aumento da educação do brasileiro.


⠀⠀⠀2. De tal forma se enraizou no espírito da sociedade brasileira o apego à importância da leitura como fonte de educação e crescimento intelectual, de formação de cidadãs e cidadãos, de difusão da cultura e da informação qualificada, que a reforma de 1967 não só preservou o “espírito imunitário” da Constituição, como o ampliou, estendendo a isenção ao próprio objeto: o livro.

A Constituição Cidadã de 1988 não poderia fazer diferente e consolidou a reiterada jurisprudência que isenta o livro, ferramenta básica de conhecimento, educação e cidadania, de impostos. A atual Carta Magna diz, em seu artigo 150, que é vedada à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita.


⠀⠀⠀3. No entanto, dada a complexidade da legislação tributária brasileira, foram criadas ao longo dos anos contribuições sociais, como PIS e COFINS, incidindo sobre a receita das empresas. Uma vez que os livros não são imunes das contribuições, a Lei nº 10.865 de 30 de abril de 2004 reduziu a zero a alíquota do PIS e da COFINS nas vendas de livros, em reconhecimento da importância deste bem para a sociedade.

Isso permitiu uma redução imediata do preço dos livros nos anos seguintes: entre 2006 e 2011, o valor médio diminuiu 33%, com um crescimento de 90 milhões de exemplares vendidos. Os fatos demonstram claramente a correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade do livro no país.

A imunidade tributária está presente em vários países do mundo. Um relatório da International Publishers Association (IPA) de 2018 argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo.

Recentemente, em abril do corrente ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão unânime, reconheceu por meio da Proposta de Súmula Vinculante 132, que o direito à isenção tributária do livro se estendia também aos leitores eletrônicos. Enfim, está na tradição da formulação das leis brasileiras e na história das decisões jurídicas, bem fundamentadas e analisadas em vários períodos diferentes da nossa história, que o livro é disseminador de conhecimento em lato senso, e que deve contribuir para o combate à desigualdade de formação da população brasileira.


⠀⠀⠀4. O escritor e editor Monteiro Lobato cunhou a famosa frase “um país se faz com homens e livros”; anos depois, o editor José Olympio acrescentou: “...e ideias”. Ai do país que se torna um deserto de homens, livros e ideias. Queimado em praça pública sempre que a intolerância triunfa, o livro resistiu aos séculos e atravessou as crises tendo a sua significação para a humanidade renovada e fortalecida.

Aliás, existe alguma prova mais eloquente da importância do livro para as vidas humanas do que as estantes cheias de obras, tal como vemos na televisão e nas telas dos computadores e celulares, nesse momento de isolamento social? Os livros estão ali, às costas das pessoas como as asas de um anjo, significando proteção, sabedoria, compartilhamento de ideias e imaginário, reafirmando nossa fé na humanidade. O amor ao livro renasceu na pandemia.

É fácil calcular o quanto o governo poderá arrecadar com a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), proposta em regime de urgência ao Congresso. Muito mais difícil é avaliar o que uma Nação perde ao taxar o bem comum da formação intelectual de suas cidadãs e cidadãos. Em perspectiva histórica, o dinheiro arrecadado à cultura, aos livros e à formação científica significa, de fato, um desinvestimento no crescimento futuro do país – que não se dará sem o crescimento intelectual amplo e igualitário de sua população.


⠀⠀⠀5. As instituições ligadas ao livro estão plenamente conscientes da necessidade da reforma e simplificação tributárias no Brasil. Mas não será com a elevação do preço dos livros – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão. Menos livros em circulação significa mais elitismo no conhecimento e mais desigualdade de oportunidades no país das desigualdades conhecidas, mas pouco combatidas.

O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão e um dos últimos a permitir a impressão e a circulação de livros e da imprensa, duas marcas negativas na nossa História que até hoje não conseguimos superar. Poucos se dão conta que o mercado nacional de livros tem menos de 200 anos. Enquanto em Paris, no Século das Luzes, lia-se Diderot e Voltaire, enquanto na Alemanha se lia Goethe, na Espanha o Dom Quixote tornava-se leitura popular, em Londres, ilustrava-se com os trabalhos de David Hume, nos Estados Unidos podiase formar o conceito de uma grande Nação nos escritos de homens públicos da estatura de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, no Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um autodidata, articulava sua conjuração carregando um exemplar surrado e contrabandeado do “Compêndio das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América” – em francês.

Ainda não se descobriu nada mais barato, ágil e eficiente do que a palavra impressa – em papel ou telas digitais – para se divulgar as ideias, para se contar a história da humanidade, para multiplicar as vozes da diversidade, para denunciar as injustiças, para se prever as mudanças futuras e para ser o complemento ideal da liberdade de expressão.


ABDR | Associação Brasileira de Direitos Reprográficos
ABDL | Associação Brasileira de Difusão do Livro
ABEU | Associação Brasileira das Editoras Universitárias
ABRELIVROS | Associação Brasileira de Editores e Produtores de Conteúdo e Tecnologia Educacional
ANL | Associação Nacional de Livrarias
CBL | Câmara Brasileira do Livro
LIBRE | Liga Brasileira de Editoras
SNEL | Sindicato Nacional dos Editores de Livros