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4.7.17

Editora Limiar disponibiliza livros grátis da literatura mundial


Com o objetivo de promover ainda mais o gosto pela leitura - de qualidade - a Editora Limiar passa a disponibilizar títulos escolhidos pela sua importância para a literatura, sua originalidade e qualidade. São obras de domínio público, de autores consagrados, mas podem ser, também, de outros pouco conhecidos do grande público, o qual convidamos para explorar e saborear suas histórias.   

Os livros podem ser lidos em qualquer leitor de e-pub. Para quem ainda não tem nenhum instalado, o site da Limiar deixa a sugestão de um leitor grátis que pode ser instalado no desktop ou dispositivo móvel.

Ressaltamos que não há qualquer interesse comercial por parte da Limiar na divulgação desses textos, bem como do leitor de e-book.


Todos os textos encontram-se disponíveis em sites espalhados pela rede. A Limiar não se responsabiliza por uso indevido dos textos, que estão em domínio público.

Iniciamos nossa coleção com autores portugueses, como o genial Eça de Queirós e um livro de contos de Florbela Espanca, escrito em 1927, mas só publicado em 1982. 

Novos autores
Caso você deseje compartilhar com outros leitores um texto seu de maneira gratuita, basta enviar o texto formatado em PDF para a Limiar. Aceitamos romances, contos, poesia e ensaios literários sobre qualquer gênero. Os textos passarão por uma análise a critério da Editora antes de serem disponibilizados.  

Clique aqui para acessar a página da Editora.


A cidade e as serras
Uma das obras disponíveis é A cidade e as serras, de Eça de Queirós. O romance narra a história de Jacinto, abastado cidadão que vive entendiado na luminosa Paris de fim de século. Na ânsia de aplacar esse tédio e melancolia, consome vorazmente as mais modernas engenhocas de seu tempo (uma situação bastante familiar com os dias de hoje). Mas isso não é suficiente para curá-lo deste "mal" e seu bordão preferido a cada nova situação é "que maçada". 

Eça descreve uma Paris que conheceu bem, pois foi cônsul na cidade por cinco anos, de 1895 até a sua morte em 1900.  

O livro foi publicado postumamente, em 1901, e mostra um aspecto da vida do escritor nos seus últimos anos de vida: a busca por uma vida de família que o retempere do «descampado do sentimentalismo» de que Eça se dizia cansado. 

A vida e as aventuras de Jacinto são narradas por seu amigo, Zé Fernandes, que o acompanha em sua trajetória da cidade para a serra, e seu encontro consigo mesmo.  

Em uma deliciosa passagem, o narrador sonha com livros, que se acumulavam na residência de Paris de Jacinto:

"Mais amargamente porém me lembro da noite histórica em que, no meu quarto, moído e mole de um passeio a Versalhes, com as pálpebras poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso Dicionário de Indústria em trinta e sete volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a facúndia humana... E já me estirara, adormecia, quando topei, quase parti a preciosa rótula do joelho, contra a lombada de um tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os colchões. Com furor é um berro empolguei, arremessei o tomo afrontoso — que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E nem sei se depois adormeci porque os meus pés, a que não
sentia nem o pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos Campos Elísios, povoada e ruidosa como numa festa cívica. E, oh portento!, todas as casas aos lados eram construídas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com títulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concórdia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flácidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau. de tomos de Exegese e Crítica. A tão vastas alturas subi, para além da Terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, donde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiozinho de luz sufocada e ansiada. E assim ascendi ao Paraíso. Decerto era o Paraíso — porque com meus olhos de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquele que não tem Manhã nem Tarde. Numa claridade que dele irradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes de ouro abarrotadas de códices, sentado em vetustíssimos fólios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catálogos — o Altíssimo lia. A fronte superdivina que concebera o Mundo pousava sobre a mão superforte que o Mundo criara — e o Criador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu ombro coruscante. O livro era brochado, de três francos... O Eterno lia Voltaire, numa edição barata, e sorria."

A cidade e as serras é uma obra indispensável.