15.7.20

PALAVRÃO é uma palavra grande







Por Shellah Avellar


Steven Arthur Pinker, psicólogo e linguista canadense, acredita que a raiz histórica dos palavrões talvez tenha sido a religião, durante a Idade Média, quando evocar o nome de Deus de forma blasfema era o pior dos palavrões. Nesta época surgiram expressões tais como “vá para o diabo”.
Depois, foram sendo criadas novas expressões, ligadas à sexualidade e ao corpo humano e denominadas de baixo calão.
Seria impossível listar aqui todos os palavrões do idioma português, pois diariamente surgem mais maneiras de ofender alguém ou de expressar algum descontentamento e sentimento através de gírias e outros xingamentos.
Talvez seja urgente conhecer palavrões aos quais você não esteja habituado. Você pode se surpreender com a quantidade e as   diversas variações a seu dispor para quando desejar espinafrar alguém.
Ou, quem sabe, você queira decorar algumas dessas palavras para usar em suas redes sociais para impressionar a galera com gírias raras e chocar com as expressões de cunho obsceno?
Talvez queira utilizá-los nas tribunas, nos pódios, nos microfones, nas entrevistas, nas coletivas de imprensa, nas reuniões familiares, profissionais, executivas e ministeriais, nos botecos de sua preferência ou nas esquinas da vida.
Assim poderemos vê-lo fungando, careteando e agitando as mãos, enquanto espera que alguém traduza o seu desprezo pelos seres humanos.
Cúmulo da “ignomínia”, você acha que pode impingir qualquer impropério aos bípedes engessados que lhe prestam atenção e comungam de seus desvarios.

Permite-se arengar sobre as Instituições que garantem o livre exercício do processo democrático.
Brinca de Deus, vociferando sua mixórdia de ideias, confinando-as na obscuridade e deixando o auditório perplexo.
Sim, você nos presenteou com uma cena única onde se enfrentam e se enlaçam a baixeza e a perversão.
O mais interessante é que os que o aplaudem e seguem, também são alvo de seu escárnio e de seus despropósitos de afundar a nação e de vendê-la a preços módicos sucateando todas as camadas de força produtiva deste país à exceção de seus comparsas.
A maior parte dos palavrões originaram-se de termos não-escatológicos que, por convenções sociais e metáforas de duplo sentido, acabaram por tornar-se uma forma obscena de representação. Diversos deles vieram de radicais latinos como a expressão “caralho”, que surgiu do latim characulu, “boceta”, que veio do latim buxis. “Foda-se”, que vem do latim futere e “puta”, que veio do latim putta. Alguns palavrões mantém seu sentido original, como “foda”, “cu” – forma estendida do latim culus. Algumas dessas palavras foram aportuguesadas de línguas como o espanhol, francês e inglês, tais como o termo “merda”: “mierda” no espanhol e “merde” no francês.
E, ao assistir esta performance grotesca, me lembro do caricaturista e ilustrador inglês Georges Cruikshank, que desenha estas pequenas criaturas que nem sempre nasceram viáveis. Ejacula este mundo minúsculo que se revira, se agita e se mescla com uma petulância indizível, sem se inquietar muito se todos os seus membros estão bem em seu lugar natural e com muita frequência, se debatem como podem.
Para horror dos que me conhecem, me permiti aqui discorrer sobre o PALAVRÃO, que na verdade, significa expressão pomposa e empolada, ou, uma palavra GRANDE.
Sabem por que? Porque até ingressar na Faculdade de Arquitetura, só conhecia e falava o palavrão “merda”. Ou porque não ouvia outros em casa e nem no colégio. Ou porque talvez não sentisse necessidade de utilizá-los porque tinha mais o que “ler”.
Minha mãe me contou que aos três anos de idade, ela ficou intrigada ao me ver no quintal de casa tentando subir numa latinha. E, impreterivelmente, perdia o equilíbrio e dizia “meda”…E ela caía na gargalhada, porque sabia que quando algo dava errado, ela exclamava merda.
Ou seja, nunca subestime a atenção subliminar e a observação privilegiada de uma criança ao seguir o exemplo dos pais. Crianças são agentes secretos perigosos. Poderiam ser extremamente úteis se contratadas pela C.I.A ou pelo F.B.I. Vai que a moda pega…
Hoje, meu repertório aumentou bastante, até porque parece ser a tônica dos pronunciamentos do poder vigente e, aliás, “haja poder “. Portanto, não consigo evitar de ouvi-los e algumas vezes repeti-los.
Isto não faz de mim recatada e do lar, nem careta. Às vezes, as palavras suaves e os argumentos firmes podem atingir o alvo mais precisamente que o palavrão, quando este é proferido “sem lenço e sem documento”.
Tenho amigos e amigas que falam muitos palavrões e acho o maior barato, porque não consigo vê-los sem portar seu rol de “palavras grandes “muito bem empregadas e na hora certa, no lugar certo e para as pessoas “incertas”…
Cai muito bem em humoristas e comediantes como Paulo Gustavo e o Coletivo Porta dos Fundos.
Por outro lado, também acho o Pedro Cardoso o máximo quando diz que não fala palavrões e arrebenta na retórica para defender seus pontos de vista.
Não estou aqui para defender a tradicional família brasileira com a hipocrisia de que não falar palavrões é sinônimo de boa educação.
A dor e a repulsa me acometem quando os nossos compatriotas estão sucumbindo -literalmente a céu aberto – numa tragédia pandêmica, esta sim, despudorada e de proporções sem precedentes na história do Brasil.
Os estrondos da servidão ao ódio, que resulta de um acasalamento de insetos que se agarram no abraço da agonia, esfacelam nossos tímpanos quando você interpreta seu monólogo de destruição.
E, assim, como os artistas, que você persegue tanto, desejam boa sorte a seus pares nas estreias de seus espetáculos, lhe desejo: MERDE!
Estamos aqui, na fila do “gargarejo” aguardando o gran-finale.
E, talvez, este grand-finale, não seja aquele em que A Educação, Os Direitos Humanos, a Saúde,o Meio-Ambiente e a Economia se utilizem de bizarrices e confidências cifradas e decretos oficiais misturados num saco de lixo esquecido no último vagão do trem dos horrores.
Mas, seja, sim, quem sabe, uma esperança desesperada, que num átimo estertoroso de oblação, transforme água em vinho e o sangue em pão e grite:
LIBERDADE! ABRA AS ASAS SOBRE NÓS!

Nenhum comentário:

Postar um comentário