21.7.20

Um “perigoso” camarada



Noé Gertel em Praga, onde trabalhou em
uma rádio, após se aposentar no Brasil     



Por Norian Segatto

Em seus mais de 80 anos de vida, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo é uma referência de luta democrática. Por ele passaram nomes que, com sua dedicação ao jornalismo ou sua militância social e política, fazem parte da história do país, do jornalismo e dos jornalistas.

Nesta atual gestão do Sindicato, a diretoria passou a investir na formação de um Centro de Memória, com o objetivo de resgatar essas histórias. Eu tenho o privilégio de poder ajudar tal iniciativa. Uma dessas figuras históricas é Noé Gertel, jornalista morto em 2002, aos 87 anos. Para saber mais sobre a vida de Noé, filho de judeus imigrantes e um notório combatente comunista, pesquisei artigos de jornais como a Folha de S.Paulo (onde ele trabalhou) e revistas, como a Novos Rumos, que publicou pelo menos dois artigos sobre ele.

Conversei, também, com a sua filha, a atriz e jornalista Vera Gertel, ela própria detentora de notável biografia, que descreve no livro “Um gosto amargo de bala” (Civilização Brasileira, 2013). A partir da leitura do livro tive uma compreensão mais profunda do homem, do jornalista e do militante Noé Gertel.


Clandestinidade e prisão

   Batalha da Praça da Sé - integralistas enxotados a bala                            
Noé nasceu em 26 de março de 1914, mas comemorava o aniversário no dia 25, em homenagem ao Partido Comunista Brasileiro (PCB, fundado em 25 de março de 1922). Ele foi, desde a juventude até a sua morte, um convicto comunista.

E pagou por essa inabalável convicção. Entrou para o PCB aos 18 anos, em 1932; participou da criação da ANL (Aliança Nacional Libertadora, frente de esquerda organizada contra o fascismo), em 1934, e da tentativa de levante popular no ano seguinte, conhecido como Intentona Comunista. Um dos episódios marcantes de 1934 foi a “batalha da Sé”, ocorrida em 7 de outubro, quando antifascistas enfrentaram e expulsaram grupos integralistas da praça central de São Paulo. Não há registros se Noé estava lá, mas é bem provável que sim, visto que militantes do PCB formaram a principal barreira contra a marcha fascista. Confira matéria de Mário Magalhães sobre os acontecimentos daquele dia. 

Com o fracasso da Intentona, saiu de São Paulo para morar clandestinamente no Rio de Janeiro, junto com sua esposa Raquel, também comunista, e com a filha recém-nascida, Vera, que só seria registrada dois anos depois de seu nascimento devido à clandestinidade dos pais. Vera conta em seu livro de memórias que a mãe queria registrá-la com o nome de Aneli, em homenagem à ANL, mas o pai optou pela prudência de um nome que não chamasse tanto a atenção. Se tornou Vera.

Preso, Noé foi condenado a cinco anos de cadeia, que cumpriu entre 1939 e 1944, na Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Com ele no presídio estavam outros tantos comunistas como Jorge Amado, Agildo Barata (pai do humorista Agildo Ribeiro), David Capistrano e Carlos Marighella, entre outros. Nesse período sua filha só conseguiu visitá-lo duas vezes. Em seu livro, Vera conta a infância longe do pai, a vida dele dedicada ao comunismo e sua trajetória até chegar ao jornalismo. Noé Gertel originalmente estudou Direito.


A saída da prisão

Após deixar a prisão e voltar para São Paulo, passou a trabalhar no jornal Hoje, publicado pelo PCB - sigla que voltara a ser legalizada após o fim da Segunda Guerra – e que chegou a ter tiragem maior do que os da chamada grande imprensa.
 Noé Gertel (à dir) e Carlos Scliar na redação do jornal Hoje 

Essa liberdade, no entanto, durou pouco, em 1948 o PCB voltou à ilegalidade. No dia 2 de janeiro daquele ano, a polícia tentou invadir a sede do jornal para evitar a saída de uma edição em homenagem ao aniversário de Luiz Carlos Prestes, que ocorreria no dia seguinte. Noé e o editor Joaquim Câmara Ferreira (assassinado em 1970) resistiram com armas em punho e tentaram escapar pelos fundos do prédio, escalando telhados enquanto trocavam tiros com a polícia. Preso novamente, Noé, desta vez, cumpriu a pena em São Paulo.

Após o golpe de 1964, com dois filhos, passou a se dedicar quase que exclusivamente ao jornalismo, trabalhando no Grupo Folha. Isso não o impediu, no entanto, de ainda ser considerado um “perigoso comunista” pelos órgãos de repressão. Nos primeiros meses do golpe sua casa foi invadida, sua mulher agredida de levada presa. Noé conseguiu se esconder e só se apresentou à polícia após a mediação da direção da Folha de S. Paulo.

Trabalhou na Folha até 1980. Foi repórter, chefe de reportagem e crítico de cinema. Encampou várias lutas, como para a liberação do filme “Rio 40 graus”, de Nelson Pereira dos Santos. Como repórter da Folha da Noite foi julgado, em 1950, por suposto crime de imprensa, ao se recusar a identificar fontes de uma matéria. Foi absolvido pelo Tribunal Especial de São Paulo; essa luta se tornou um dos símbolos da liberdade de imprensa.   

Ao sair da Folha, passou a editar o Voz da Unidade, jornal ligado ao PCB. Aposentado, foi para Praga trabalhar em uma rádio.


Comunista não ortodoxo

Pedi para Vera um depoimento sobre seu pai. Por email, ela me escreveu: “Meu pai foi um dos ‘suspeitos de sempre’. Qualquer agitação política, e foram muitas, lá ia para a cadeia. Quando não era ele, era minha mãe, Raquel. Um não vivia sem o outro só que não sabiam disso. Meu pai era de uma solidariedade imensa. Embora fosse contra a luta armada, abrigou o Marighella em seu apartamento durante dois meses, logo depois do sequestro do embaixador dos EUA. Sempre foi um comunista não ortodoxo”.  

  Reunião do Clube dos Ursos                                              

Nos últimos anos de vida, Noé Gertel participou do “Clube dos Ursos”, nome dado pelo escritor Luiz Maria Veiga ao grupo de amigos e intelectuais que se reunia semanalmente em uma pizzaria na rua da Consolação para discutir sobre tudo, sobretudo política. Noé era o presidente de honra do Clube. “Certa vez, fui a São Paulo só para visitá-lo. Deixou-me plantada na sala assim que cheguei porque tinha uma reunião importante. Fiquei plantada lá com cara de tacho. Era o tal clube. Falavam de tudo, brigavam a altos brados, discutiam, depois iam para o Café ao lado. Numa próxima vez que fui a São Paulo, levou-me e fiquei fazendo parte do clube até hoje quase como sua substituta. Até fizemos um brinde quando Noé morreu. Ô cara para gostar da vida”, relembra Vera.


Esta matéria foi publicada, inicialmente, no jornal Unidade, edição 405, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

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