Analytics

Entrevistas

Banquete em país de esfomeados
Autor do livro Ponto Eletrônico (Ed. Limiar), o jornalista, apresentador do programa Mesa Redonda, Futebol Debate (TV Gazeta), comentarista esportivo da Rádio Jovem Pan e professor universitário, Flávio Prado, há mais de 30 anos respira futebol diariamente e nunca deixou de ser um ácido crítico da cartolagem brasileira. Aqui, ele ataca a CBF, a Fifa e diz ser totalmente contrário à realização da Copa de 2014 no Brasil. Confira neste papo de boleiro com Norian Segatto

No primeiro jogo da final da Libertadores de 2011 entre Santos e Peñarol, o radialista Nilson César anuncia a plenos pulmões: “O Peñarol vai mudar, vai entrar Nunez, e pelo jeito ele tem moral com a torcida”. O comentarista Flávio Prado não perdeu a oportunidade e disparou no ar: “Deve ter mesmo, todos os jogadores usam o nome dele na camisa”. Nunez, na verdade, era o nome do patrocinador da equipe, quem entrou foi o atacante Pacheco. Nilson César ficou calado por vários segundos (um crime em se tratando de rádio) enquanto na redação pessoas rolavam no chão de tanto rir.
Irreverente e sempre disposto a uma boa “molecagem”, o jornalista Flávio Prado, autor do livro Ponto Eletrônico, não tem papas na língua quando se trata de falar das mazelas do futebol e das falcatruas dos cartolas.




Qual a sua expectativa com a Copa América?

Flávio - Em relação à seleção do Brasil, nenhuma, a Copa América é um apanhadão de equipes, algumas sem qualquer expressão no cenário do futebol, para a seleção acho que acrescenta muito pouco, até mesmo porque falta muito tempo para a Copa do Mundo e é essa que vale.

A seleção brasileira pode ganhar tudo, mas se perder a Copa do Mundo...

Flávio – Exatamente, veja o que aconteceu com o Dunga.

E como você avalia o trabalho do Mano Menezes?

Quando ele assumiu promoveu uma renovação total na seleção, era como se os jogadores que perderam a última Copa estivessem amaldiçoados. Como os resultados em campo não surgiram, ele foi obrigado a trazer diversos jogadores de volta, como o Júlio César. Acho que nisso ele perdeu muito tempo porque não se reformula uma seleção assim sem mesclar novos com antigos, até a França que fez vexame na Copa está mantendo uma base de jogadores.

E quando se fala em renovação, pensando em 2014, quem você vê com potencial para brilhar na seleção?

Atualmente, só o Neymar e o Pato.

E o Ganso?

O Ganso é um bom jogador, mas é apenas uma promessa ainda, por conta das contusões, ele praticamente não jogou pela seleção, não teve participação na campanha do Santos na Libertadores, é um grande jogador, mas ainda não dá para apostar todas as fichas nele.

E quanto à realização da Copa do Mundo no Brasil?

Sou totalmente contrário.

Por que?

Veja bem, vamos pegar o caso de São Paulo, o que a cidade vai ganhar com a Copa do Mundo? Nada, absolutamente nada. Mais turistas? São Paulo é a cidade com maior fluxo de turismo de negócio da América Latina, os hotéis vivem com a ocupação máxima quase todo o ano. O transporte vai melhorar? Não. A Copa não acrescenta nada para São Paulo, só vai gerar uma dívida de 1 bilhão de reais. Outro dia fui levar um parente em um hospital na Vila Mariana, local bacana da cidade, e o hospital municipal não tinha gaze! As escolas públicas estão deterioradas, a saúde está uma lástima, o transporte público é deficiente e vamos gastar milhões para organizar uma Copa?

E a construção do estádio do Corinthians?

Isso, sim, é a única coisa que concordo, porque se torna uma opção de desenvolvimento para uma área periférica da cidade, mas para isso não precisa de Copa do Mundo.

Você está falando de São Paulo, mas e nas outras cidades e estados?

Pior ainda, se a cidade mais rica do país tem essas mazelas, imagine o restante. Veja Brasília, vão construir um estádio para 40 mil lugares, quando o público médio dos jogos é de mil pessoas. Outro fator é o custo de vida, em cidades que sediaram Olimpíadas ou Copas, o custo de vida aumentou em média 30%, e quem paga essa conta, a população, é claro. É como se você quisesse dar um banquete em sua casa sem ter sequer geladeira para guardar os mantimentos, a Copa do Mundo no Brasil é um banquete em país de esfomeados. E ainda corremos o risco de não ganhar, imagine você, além do dinheiro desperdiçado será outro trauma que vai durar 50 anos (risos)

E o que você achou da decisão de manter o orçamento da Copa em sigilo?
 Não me surpreendeu nem um pouco, isso é a cereja do bolo. Atrasam as obras para que tudo seja feito sem licitação, às pressas, com dinheiro público, já vimos esse filme no Pan do Rio de Janeiro, estamos vendo na Copa e vamos ver na Olimpíada de 2016.

Por falar em mazelas, a Fifa hein...?

A Fifa virou um grande antro de negociatas e corrupção, isso começou na época do João Havelange e parece que está se aprimorando agora com o [Joseph] Blatter, que é um discípulo aplicado do Havelange.
A CBF parece que não fica muito atrás.
Com certeza, é tudo parte da mesma família, o Ricardo Teixeira [presidente da CBF] e o Havelange são parentes, inclusive.

E o que pode ser feito para mudar isso?

O primeiro passo seria essas entidades terem maior transparência, fiscalização externa, mas não vejo a possibilidade de isso ocorrer em curto prazo. O Ricardo Teixeira trata a CBF como se fosse a casa dele, sem dar satisfação a ninguém.

E no campeonato brasileiro, em quem você aposta?

Olha, acho que será um campeonato equilibrado, tem uns cinco ou seis times em condições de ganhar, não mais do que isso.

Nenhum time se destaca?

Acho que o Santos se destaca um pouco por causa do Neymar, sem ele é um time comum, o Coritiba fez um excelente primeiro semestre, se a derrota na Copa do Brasil não afetá-lo pode fazer um bom campeonato, mas não aposto como favorito também.

O que você achou da despedida do Ronaldão?

Achei ridícula, para fazer aquilo era melhor não ter feito nada.

E a Ponte, sobe?

Estamos torcendo para isso (risos).




Precisamos de um novo marco regulatório para o cooperativismo



Para o coordenador político da ADS, Ari do Nascimento, é necessária a criação de um novo marco regulatório para o setor, que dê respostas a gargalos como acesso a crédito e financiamento. Segundo ele, as pesquisas apontam a existência desses gargalos, mas também o potencial dos empreendimentos solidários e a boa receptibilidade por parte dos empresários. A entrevista faz parte do livro “Conexão Solidária”, lançado pela Limiar, com patrocínio do BNDES. O livro não está à venda, sua distribuição é gratuita mediante solicitação à Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT (Central Única dos Trabalhadores)



Como surgiu na CUT a proposta de se criar a Agência de Desenvolvimento Solidário? Quando a ADS começou a funcionar?
Ari Aloraldo do Nascimento – A ADS surgiu da necessidade de uma ferramenta que pudesse articular e construir políticas de geração de trabalho e renda como forma de amenizar o impacto da política neoliberal implementada no Brasil. O desmonte do parque industrial brasileiro, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, fez com que a CUT enfrentasse este debate e é neste contexto que a ADS surge em 1999, com o desafio de organizar trabalhadores para assumir a gestão de empresas em dificuldades ou em processo de falência. A partir daí surgiram empreendimentos solidários em praticamente todas as regiões do país, através de cooperativas, associações, com o pressuposto de buscar autonomia, independência e autogestão.

E quais foram os principais desafios encontrados para a criação da ADS?
Primeiro, o convencimento dos dirigentes da necessidade de priorizar, na agenda sindical, este tema. Formação de lideranças para enfrentar este desafio, porque a cultura dos trabalhadores era a de ser empregados e de uma hora para outra surge a necessidade de tornarem-se gestores. E, por fim, convencer parceiros da necessidade de se construírem pontes para enfrentar tamanha dificuldade.

Como é feito o contato com as cooperativas, como elas podem participar da ADS?
O principal contato sempre é através de nossas lideranças sindicais locais. A participação se dá por meio do preenchimento de alguns requisitos importantes para esta caminhada como, por exemplo: a autogestão, sustentabilidade, solidariedade e a vontade do fazer coletivo.

O que a ADS oferece para essas cooperativas em termos de estrutura, comercialização etc.?
Estamos concluindo uma importante etapa do nosso projeto que é o suporte estrutural da central de comercialização, que vai, com certeza, encurtar o caminho entre o produtor até o consumidor final. Além desta estrutura, que está em fase de conclusão, vamos trabalhar com políticas de acesso ao crédito, desenvolvimento de novos produtos e aprimoramento dos que já estão no mercado, além de outros instrumentos necessários para acessar o comércio interno e externo.

A ADS organizou uma feira, em São Paulo, qual foi na sua avaliação o resultado – prático e político – desta iniciativa?
Na verdade, organizamos uma mostra de produtos e serviços, em que o principal objetivo era apresentar para o maior mercado consumidor do país o verdadeiro potencial da economia solidária. E este objetivo foi atingido. Foram diversos contatos comerciais feitos e vários negócios realizados. Conseguimos colocar nesta mostra os principais produtos que produzimos e os principais compradores. A partir deste evento nos inserimos no mercado da moda e decoração, penso, sem falsa modéstia, que daqui por diante não tem como falar de moda/artesanato sem fazer alguma referência ao Conexão Solidária. No plano político passamos a fazer parte da agenda de diversos segmentos sociais.

Na sua opinião, o cooperativismo é, de fato, uma alternativa viável econômica e socialmente para alguns setores da sociedade?
O cooperativismo é, sem sombra de dúvida, uma excelente organização coletiva. Mas, no Brasil, há muitos entraves burocráticos que dificultam a vida das cooperativas, é urgente um novo marco regulatório que enfrente de fato os principais gargalos; além da burocracia, temos os problemas fiscais e de acesso ao crédito que são verdadeiras barreiras. Não podemos negar que houve avanços, mas é completamente insuficiente na caminhada rumo a um novo paradigma.

Atualmente, com quantas cooperativas a ADS trabalha e quais são os principais ramos de atividade?
Temos contato com centenas de cooperativas, estamos trabalhando com 160 cooperativas num projeto de comercialização, mas estamos em campo pesquisando mais 150 para também colocarmos no mesmo circuito. Estamos organizados nos ramos têxtil/confecção, artesanato, industrial, reciclagem e alimentação.

Você acredita que é possível desenvolver uma cadeia produtiva a partir das cooperativas?
Com certeza, já temos algumas iniciativas bastante interessantes, principalmente no setor têxtil.

As pesquisas que se encontram neste livro mostram o potencial das cooperativas, como a ADS trabalhou e está trabalhando com os dados revelados nas duas pesquisas?
As pesquisas têm sido a base de nosso trabalho. A pesquisa de mercado nos surpreendeu pelo interesse das empresas em estabelecer relações comerciais conosco, e estamos falando de empresas com grande potencial para aquisição dos nossos produtos, muitas das quais estamos em contato. Em relação à pesquisa feita junto aos empreendimentos, estamos trabalhando nos gargalos apresentados como acesso ao crédito, acesso ao comércio e no desenvolvimento de técnicas que possam facilitar o trabalho das cooperativas. A divulgação deste livro também será muito importante no caminho de mostrar o verdadeiro potencial da economia solidária.

A ADS possui projetos de capacitação para trabalhadores de cooperativas?
Dentro do nosso projeto de comercialização estão vários fatores importantes que serão trabalhados junto às cooperativas, que vai desde a precificação até o desenvolvimento de novos produtos.

Quais os principais projetos da ADS para os próximos anos?
O principal projeto será a criação de um paradigma de comercialização que rompa com o círculo vicioso de que produto da economia solidária não tem qualidade. No mundo da moda estamos dando respostas muito concretas e faremos isso em todos os segmentos. Os demais projetos estão voltados a dar suporte ao projeto âncora que é a Central de Comercialização. Como, por exemplo, o Observatório de Oportunidade de Negócios e uma política para capital de giro.